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Todo homem que rende elogios ostensivos ao dinheiro deve possuir complexo de genitália, porque deposita nele a salvação desviadora da sua incapacidade erétil-criativa e do seu fracasso moral.

Todas aquelas crianças bonitas do colégio vieram a fracassar, porque ficaram tão seguras pelas portas que suas belezas abriaram que esqueceram-se do restante. Aproveitaram os elogios, os suspiros, os namoros etc. e deixaram de chorar no fim da tarde.

O corpo humano limita-se a possuir beleza apenas uma única vez. Ou se é bonito na infância ou na adolescência ou na fase adulta ou na velhice. Mas existe uma salvação: a beleza da alma não muda. Porém, pouquíssimos possuem as duas.

Existir é uma instância de “quases”.

O maior indicador de uma cultura já fragilizada é andar por uma cidade e ver seus restaurantes, seus supermercados e sua publicidade oferecendo uma comida universalizada. Seja um mero hamburguer sem gosto até um prato de comida com gosto de plástico. Tudo tem sabor de um pastiche de nada, como se apenas jogassem um tempero que dá o gosto insoso e um layout que muda a aparência.

Fui a um enterro e, enquanto jogavam o defundo na vala, imaginei um outro mundo embaixo, como num portal, onde tudo continuava. Todas as camadas de todas as épocas prendiam os corpos para que as almas corressem livres pelo universo e atravessassem o planeta. Assim como, de baixo, os cemitérios parecem maquetes de cidades, de cima, ao contrário, as cidades também parecem cemitérios. Ambos escondem os ossos para retirar a morte da visibilidade do que chamamos de vida.

Todos os dias é a mesma coisa. Abro minha conta de e-mail e direciono quase todas as cartas ao lixo. Algumas acabam invadindo minha privacidade, porque ainda conseguem me atrair por algum detalhe: uma cor, alguma palavra ou algo do meu interesse. Nas ruas, eu observei alguns garotos que entregavam panfletos de uma cigana que prometia resolver a vida sentimental. Ninguém conhece ninguém, mas arriscam uma relação de consumo do invisível. Outro dia, um rapaz vendia uma revista de palavra cruzadas dizendo “comprem cultura”. E na primeira lata, abandono todo o lixo recebido. Outras palavras, expressões e personagens invadem meu imaginário. O consumo e seus aliados chegaram num ponto tão crítico que várias imagens nos são oferecidas hoje, sem nenhuma concretude. Ninguém mais precisa ver para crer. Vendem-se imagens – não como num banco de imagens digitais, porque cobra-se pela sua invisibilidade.

Escrito por gheirart às 15h33
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