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Quando chove, sinto como se o mundo estivesse tomando um grande banho. Acender uma vela e observar os rumos que a chuva toma, por conta do vento, é também um prazer impagável. Porém, quando saímos às ruas, percebemos que as coisas não são tão belas assim. A água invade o mundo social, deixando-nos sempre cismados com seu tom de ameaça. Os lixos, que descem pelo tapete de asfalto, passam pelos pés sujos do mendigo. Na calçada, em frente a ele, homens circulam na hierarquia de seus guarda-chuvas. Como a gentileza é uma palavra esquecida nos nossos tempos, os resistentes páram para que a multidão continue seu caminho hipnótico e quase linear. Invisíveis também aos outros sujeitos são os que dirigem seus carros e permanecem imunes à chuva e ao chão. Outros andam com seus isoladores aparelhos tocadores de música e aproveitam para transbordar seus lagos de lágrimas. Na chuva, todos fantasiam-se, todos suspendem-se. Seja pelas capas, pelos guarda-chuvas, pelos carros, táxis. E a água escoa debilitada pelas carcassas dos buracos debaixo dos nossos pés e nunca mais volta ser tão transparente quanto chegou. Espera ansiosa pela evaporação.

 •

O cego chorava sobre uma imagem. Uma multidão circulava pelas praias, em mais um possível dia de sol.  Acendeu um cigarro em homenagem ao tédio de um desfile de corpos. Observava, no fundo, o tráfego marcado pela hierarquia das lanchas superiores aos possíveis corpos afogados. Tragava numa autodestruição lúcida, aspirando por um tsunami invisível. Homens inflados e mulheres avatares, o artifício materializado do corpo no capitalismo tardio. Na falsa democracia do mar, com suas ruas líquidas excludentes.Um aplauso ao pôr-do-sol, por favor! Escureceu. A multidão se dispersou. Então, parou de chorar e voltou-se para fora.

 •

Meu corpo é um quarto escuro. A vida está lá fora. A luz é vista pelas janelas da alma. Está tudo dentro do quarto, mas o meu instinto voyeur está certo de que espionar é mais higiênico. Isso faz com que a minha cama permaneça desarrumada e as minhas roupas esparramadas pelos sete cantos, sobre coisas que não sei se existem.

Sei que sempre há uma vela no fundo de uma gaveta, mas aquelas luzes me seduzem e me faz viver um tempo-agora. “Vai ser difícil encontrar um fogo adormecido nessa escuridão”, penso. Estou com as minhas molduras acesas de posters efêmeros. A arte me ensinou a enquadrar, a buscar um olhar divino-social no close de uma fechadura que é a porta e a parede – para além dela deve estar a resposta.

Os meus eus são protagonistas desse filme; interpretam brilhantemente textos-imagens. Mas quando eles retornam, já estou dormindo. Às vezes, me despertam dos meus pesadelos de aviões e elevadores desconfigurados. Aqui nunca é dia, porque não tenho o meu sol. Tudo é eterno e sem sentido. Ah, essas janelas dão mesmo profundidade a vida! Meu eu-guardião acorda. Uma pequena multidão embaçada retorna. E todos dormimos.

 •

A maioria dos homens que fazem largo uso do humor e da simpatia carregam no cárcere do corpo uma alma ressentida. E não se trata do palhaço-poeta nietzschiano, trata-se de um sujeito derrotado que se garante pelo falso mundo de plástico da vida social.



Escrito por gheirart às 11h18
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