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Adotei uma dúzia de plantas. Avistei-as na loja e elas, na sua tristeza, me convenceram. Elas se perderam de seus pais. No embate entre natureza e cultura. Perderam para as ervas daninhas de cimento.

Mesmo longe da sua condição natural, elas me parecem um pouco mais felizes agora. Dormem agora em seus berços - com apenas os pés cobertos. Sonhando, como traidoras, com o nada da domesticação.

•••

A evaporação é um passatempo das águas. Para que então subir tão alto? Para sentir o prazer da queda livre? Ou são as nuvens seus aviões particulares? Talvez consigam sentir o nada de lá de cima e suicidam-se.

Na ordem da representação elas devem voltar para regar plantas! Na sua liberdade, a multidão pode escolher quais desejam molhar. Assim, quando chove pela manhã, as plantas lavam-se do calor da noite. Livram-se da neblina como um desagradável suor.

•••

Nosso rock nacional é tão rural, que mal afeta nossos ouvidos contaminados e globalizados. O que seria Cazuza se fosse norte-americano? Certamente, não um Jim Morrison de Ipanema. Abri o Google para conferir onde Cazuza morava e a resposta era: “Cazuza mora em mim”. Sábia resposta.



Escrito por gheirart às 15h44
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BILHETE À UMA ARTISTA

Tive dias ótimos e as coisas voltaram ao (seu devido?) lugar. Muita coisa para pensar e a razão é uma ferrameta indispensável contra o drama. Tenho te achado muito carinhosa e sensível. Deve ser por isso que suas coisas estão ainda mais cheias de alma. Não tenho mais dúvida, o fundo do poço é o lugar perfeito para longos retiros espirituais. Quando penso no fundo desse poço, imagino cavar a terra até a água chegar e mergulhar nas águas que te espreme, te diminui, quanto mais fundo você for, até o corpo explodir. Como um verme entre duas unhas.
Nós subimos à tona antes disso acontecer! Voltamos sempre melhores porque descobrimos que, na verdade, o poço não tem fundo!
Semana corrida, mas o tempo é só um detalhe. Assim como a realidade!
Falamo-nos.
•••

Ainda não entendi essa efervecência popular pela vinda da Madonna ao Brasil. Não sou ingênuo para descartar o apelo midiático a um nobre produto pós-moderno, mas me assusta esse desprovimento crítico que a coloca num plano simbólico no qual ela seria um figura revolucionária e socialmente importante. Então, vamos retomar a um passado nem tão distante, para situarmos essa discussão historicamente em dois marcos fundamentais: quando dadaísmo e surrealismo enterram a arte moderna e, depois, a pop art que concretiza essa não necessidade de profundidade da arte.

Madonna aparaceu como um pastiche de Marilyn Monroe. Uma versão marginalizada de “Diva” que, como um espelho, vendeu sua alma à indústria do espetáculo para refletir o talento de outros artistas. Sua carreira é sinônimo de mega-produção – estilos sonoros, figurinos, imagens, coreografias, glamour, “quase escândalos” etc. (lembrei-me do último show do Kraftwerk, no Tim Festival, onde, no bis, eles tocaram com robôs no lugar da banda. Assim é a Madonna, uma projeção do talento produzido e planejado da qual vive a indústria da cultura).

Mas a prova maior de mediocridade veio depois, porque nesta estrada ela foi se transformando. Foi estudar, aprendeu a cantar, se envolveu em projetos interessantes. E o que resultou de tudo isso? Como diria Baudrillard, ela se estilhaçou por completo. Não foi capaz de gravar sequer um disco descente. Não foi sequer capaz de fazer uma arte que imortalizasse seus sentimentos. Continua com aquelas mesmas dancinhas patéticas, com letras de bandinhas adolescentes, forçando uma imagem de juventude que a abandonou há décadas. Muito me entristesse ver pessoas tão inteligentes se satisfazendo com esse tipo de arte vulgar. Contetam-se em contemplar um quadro apenas pela assinatura do artista.



Escrito por gheirart às 11h32
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