Texto extraído do memorial da minha dissertação "cultura e consumo do efêmero: abordagens do sujeito em cenas digitais e regimes midiáticos".
Como prelúdio desse concerto, de versos falados e de sons imaginários, pretendo contextualizar poeticamente a problemática máxima das minhas reflexões, que tem o sujeito como horizonte. Gostaria que ele funcionasse como uma simples entrada no meu mundo reflexivo. Nos três atos desse concerto (que irei colocar todos em sequência), revela-se esse humilde pesquisador de si mesmo e a sua tentativa de, nesse projeto, encontrar antídotos para suas inquietações.
ATO 1 : O nada e a existência
DÚVIDAS:
Nada tem sabor na dúvida
Até os momentos de auge são fugazes
Como gozar consciente da solidão
E chorar por alguém que um dia vai morrer
E no fundo lembrar-se de sua fé tímida
E se sentir sempre culpado
Por estar presente em algum lugar
No mesmo lugar de sempre[1]
PERGUNTAS:
Não será nossa vida um túnel entre duas vagas claridades?
Ou não será uma claridade entre dois triângulos escuros?
Ou não será a vida de um peixe preparado para ser pássaro?
A morte será de não ser ou de substâncias perigosas?
Não será por fim a morte uma cozinha interminável?
Que farão teus ossos desagregados, buscarão outra vez sua forma?
Se fundirá tua destruição em outra forma e em outra luz?
Formarão parte teus vermes de cães e de borboletas?
Mas sabes de onde vem a morte, de cima ou de baixo?
Quantas perguntas tem um gato? [2]
DESASSOSEGO:
O homem vulgar, por mais dura que lhe seja a vida, tem ao menos a felicidade de a não pensar. Viver a vida decorrentemente, exteriormente, como um gato ou um cão – assim fazem os homens gerais, e assim se deve viver a vida para que possa contar a satisfação do gato e do cão. Pensar é destruir. O próprio processo do pensamento o indica para o mesmo pensamento, porque pensar é decompor. Se os homens soubessem mediar no mistério da vida, se soubessem sentir as mil complexidades que espiam a alma em cada pormenor da ação, não agiriam nunca, não viveriam até. Matar-se-iam de assustados, como os que se suicidam para não ser guilhotinados no dia seguinte. [3]
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[1] GHEIRART, Ozie. O livro das dúvidas. São Paulo: (não publicado), 2000. p. 5
[2] NERUDA, Pablo. O livro das perguntas. Porto Alegre: L&PM Editores, 2004. p 77-81
[3] PESSOA, Fernando. O livro do desassossego. São Paulo: Companhia das letras, 2006. p. 199-200