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ATO 3: A gênese e a morte

 

DESASSOSSEGO

Já que não podemos extrair beleza da vida, busquemos ao menos extrair beleza de não poder extrair beleza da vida. Façamos da nossa falência uma vitória, uma coisa positiva e erguida, com colunas, majestade e aquiescência espiritual.[4]

 

PERGUNTA

Que significa o beco da morte?

No deserto do sal como se pode florescer?

Quando já se foram os ossos quem vive no pó final?[5]

 

DUVIDA

Assisti a minha morte e senti a mesma dor de morrer

E meus pensamentos se apegaram em outras coisas

Para que eu não conseguisse ir além

E novos passos surgiram dando ritmo ao meu medo

E o dia amanheceu com uma luz que cegava

E somente naquele momento percebi: estava vivo

E esqueci os passos da noite anterior[6]

 

ATO 2: As permanências

PEGUNTAS:

Porque que choram tanto as nuvens e cada vez são mais alegres?

As lágrimas que não se choram esperam em pequenos lagos?

Ou serão rios invisíveis que escorrem até a tristeza?

Quantos anos têm novembro?

Porque se suicidam as folhas quando sentem-se amarelas?[1]

 

DÚVIDAS:

Pensei numa imagem que nunca vi e fugi para um horizonte qualquer

Correndo em sentido contrário e nunca mais dormi

Fiz uma música na minha cabeça para não confessar que a vida não basta

Esqueci a melodia

Esqueci quem sou e continuei – embora nunca soubesse de verdade quem era

Refletia-me nas pessoas

Tive uma insônia no meu próprio sonho

e acordei sendo quem eu gostaria de ter sido

E chorei, porque até o que eu queria ser era em função dos outros[2]

 

DESASSOSSEGO:

Esperar? Que tenho eu que espere? O dia não me promete mais que o dia, e eu sei que ele tem decurso e fim. A luz anima-me mas não me melhora, que sairei de aqui como para aqui vim – mais velho em horas, mais alegre uma sensação, mais triste um pensamento. No que nasce tanto podemos sentir o que nasce como pensar o que há-de morrer. Agora, à luz ampla e alta, a paisagem da cidade é como de um campo de casas – é natural, é extensa, é combinada. Mas, ainda no ver disso tudo, poderei eu esquecer que existo? A minha consciência da cidade é, por dentro, a minha consciência.[3]


[1] NERUDA, op. cit. p. 17-29

[2] GHEIRART, op. cit. p. 9

[3] PESSOA, op. cit. p. 365-366

[4] PESSOA, op. cit.  p. 231

[5] NERUDA, op. cit.  p. 131

[6] GHEIRART, op. cit. . p. 3



Escrito por gheirart às 14h05
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Texto extraído do memorial da minha dissertação "cultura e consumo do efêmero: abordagens do sujeito em cenas digitais e regimes midiáticos".

 

Como prelúdio desse concerto, de versos falados e de sons imaginários, pretendo contextualizar poeticamente a problemática máxima das minhas reflexões, que tem o sujeito como horizonte. Gostaria que ele funcionasse como uma simples entrada no meu mundo reflexivo. Nos três atos desse concerto (que irei colocar todos em sequência), revela-se esse humilde pesquisador de si mesmo e a sua tentativa de, nesse projeto, encontrar antídotos para suas inquietações.

 

ATO 1 : O nada e a existência

 

DÚVIDAS:

Nada tem sabor na dúvida

Até os momentos de auge são fugazes

Como gozar consciente da solidão

E chorar por alguém que um dia vai morrer

E no fundo lembrar-se de sua fé tímida

E se sentir sempre culpado

Por estar presente em algum lugar

No mesmo lugar de sempre[1]

 

PERGUNTAS:

Não será nossa vida um túnel entre duas vagas claridades?

Ou não será uma claridade entre dois triângulos escuros?

Ou não será a vida de um peixe preparado para ser pássaro?

A morte será de não ser ou de substâncias perigosas?

Não será por fim a morte uma cozinha interminável?

Que farão teus ossos desagregados, buscarão outra vez sua forma?

Se fundirá tua destruição em outra forma e em outra luz?

Formarão parte teus vermes de cães e de borboletas?

Mas sabes de onde vem a morte, de cima ou de baixo?

Quantas perguntas tem um gato? [2]

 

DESASSOSEGO:

O homem vulgar, por mais dura que lhe seja a vida, tem ao menos a felicidade de a não pensar. Viver a vida decorrentemente, exteriormente, como um gato ou um cão – assim fazem os homens gerais, e assim se deve viver a vida para que possa contar a satisfação do gato e do cão. Pensar é destruir. O próprio processo do pensamento o indica para o mesmo pensamento, porque pensar é decompor. Se os homens soubessem mediar no mistério da vida, se soubessem sentir as mil complexidades que espiam a alma em cada pormenor da ação, não agiriam nunca, não viveriam até. Matar-se-iam de assustados, como os que se suicidam para não ser guilhotinados no dia seguinte. [3]

 

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[1] GHEIRART, Ozie.  O livro das dúvidas.  São Paulo: (não publicado), 2000. p. 5

[2] NERUDA, Pablo.  O livro das perguntas.  Porto Alegre: L&PM Editores, 2004. p 77-81
[3] PESSOA, Fernando.  O livro do desassossego.  São Paulo: Companhia das letras, 2006. p. 199-200



Escrito por gheirart às 15h28
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