Eu ganhei um aquário com um peixe para somar à minha pequena selva embutida, ao meu jardim suspenso. Fiquei tão triste ao vê-lo dentro de um espaço tão minúsculo! Ele poderia ter o infinito das águas ou mesmo o infinito (a ele) de um lago. Eu sentia aquele aquário com a versão líquida da gaiola ou do vaso de orquídea. Colocava oito flocos de alimento ao dia, como dizia o guia de instruções daquela vida, e sempre me invadia uma sensação de desconforto. Ele estava sempre parado e, cada dia, aquele mal-estar crescia. Ao seu lado, uma pilha de livros sobrepunha no reflexo do seu silêncio. Estavam lá, dando pistas da energia de melancolia que construía aquele lugar. Sloterdïj, Schopenhauer, Kierkegaard, Heidegger, Bachelard, Artaud, Pessoa, Camus, Goethe, Adorno, Lispector e Morin. O peixe morreu: observei numa certa manhã. Naquele mesma noite, o amigo que me presenteou fez-me uma visita inesperada. Com um certo pesar, informei-o do falecimento do presente (ausente?). Ele completou: eu acho que ele se suicidou. Dias depois, descobri que ele tinha-me deixado outro presente: uma pergunta. Quem disse que os animais não se suicidam? Pela sacada de um prédio, no meio de uma metrópole, retornei ao primitivo. Imaginei-me numa desconfortável árvore. Schubert e Nietzsche fazem a minha tarde de sábado. É como se Nietzsche narrasse num spoken words. Durante a manhã é quase imperceptível essa simbiose, porquê sobe um cheiro de comida dos apartamentos do prédio que causa-me náuseas.
Escrito por
gheirart
às
13h40
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