A natureza virou pano de fundo. A lua quase se movimenta no céu escuro, no seu reflexo nas passagens das nuvens, mas as luzes da decoração de natal sugam os nossos olhares. Assim como a geometria pode aumentar um lugar independente do seu tamanho pela ilusão de ótica, as luzes da cidade desenham a vida social e nos dá sensação de que estamos protegidos numa caixa de presente de natal. E então esquecemos que estamos flutuando sob um planeta dentro de um infinito sistema solar e dentro do infinito de que somos incapazes de imaginar. Toda vez que chego nesse infinito me bate o horror da falta de sentido e o efeito passa. Daí, acendo a luz. Mas é tão difícil acreditar nessa droga fraca de mundo artificial, que faz vistas grossas à nossa complexidade! É como se essa consciência que herdamos de 30 milhões de anos estivesse estrategicamente adormecida, em fragmentos, em cada ser. Seria a "des-humanização" o nosso futuro retorno ao primitivo? Será que o homem teme sua evolução ou sua inevitável chegada ao que chamamos de incompreensível que é também o nada? A vida social é o nosso desvio, é a nossa droga mais potente. Alguns passam a vida inteira viciados por uma droga derivada dela: o consumo (também a religião, a moral etc.). A vida social está para o consumo como a cocaína está para o craque. Então o consumo poderia ser um eterno carnaval? Ah, lá do prédio mais alto a cidade vira um formigueiro. Estamos voltados para baixo, como os girassóis que o sol abandonou para sempre. Apenas o nosso sol fragmentado nas luzes artificiais nos rouba um olhar preguiçoso, que agride a retina e não nos permite ver para além dele: veja, as nuvens agora tentam ofuscar o brilho da lua! Dentro do carro, de casa, da terra, dentro de qualquer lugar está a nossa proteção. Tornamos-nos animais que buscam a caverna. O tolo esconderijo do nosso ego, já que ele, atento, conhece a fraqueza desta capa de carne. Mas eu tenho um amigo que tinha uma tartaruga que sempre procurava um canto escuro e todos sentiam pena, como se a felicidade do homem fosse modelo para tudo que existe. E quando as luzes se apagam, ninguém vê nada.
Escrito por
gheirart
às
12h25
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