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De longe, observei um homem cortando uma montanha com sua bicicleta. Parecia-me tão poética aquela imagem, de uma simplicidade que me emocionava. O distanciamento é ordem para a contemplação. Como contemplaríamos o sol próximo das suas chamas? Da mesma forma, aquele personagem poderia ser um simples operário indo para um trabalho escravo nas lavouras, que sequer percebia a imagem que compunha para mim. A forma como vemos os outros tem sempre esse aspecto conotativo (ou denotativo), de quase parte de um cenário cinematográfico, quase ficção. De perto, e na contramão, muitas coisas nos servem de modelo a ser evitado, de tudo o que não jamais gostaríamos de ser.

O consumo é um enzima que nos faz sentir um desejo insustentável por tudo. Para nos desvencilhar dele, ou adotamos a lógica de um cão bravo, de focinheira, que tem um filé mignon na vasilha de ração ou adotamos a lógica contrária, do pássaro que, seduzido pelo cheiro de frutas do chiclete amolecido num dia de verão, tem seu bico lacrado e morre no dia seguinte.

Um homem sentado à beira de uma pacata estrada observa o silêncio. O vento da passagem de um carro veloz traz de volta a sua consciência de existir.



Escrito por gheirart às 10h32
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