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Tenho reparado, nos shows que tenho ido, que a platéia é mediada por uma infinidade de celulares. As vezes, parece que as pessoas querem registrar e, no fim, vêem a apresentação pelos olhos dos monitores de seus aparelhos. Para o artista, deve ser bem desagradável porque, ao invés de público, ele parece ter na sua frente um mundo de câmeras que o desconcentra e transforma o show numa desagradável coletiva de imprensa. Os otimistas devem pensar que os celulares ligados são uma versão pós-moderna dos isqueiros acesos? No mundo paralelo da fama, talvez essa fosse a única relação ainda verdadeira, artista e povo. As máquinas invadiram tudo.

 

Um rapaz levou um fora da namorada. No dia seguinte, enviou um torpedo para sua lista de contatos detonando a pobre moça. Num dia, no mês passado, antes de dormir, meu celular avisou uma mensagem. Um colega comunicando que a namorada estava o traindo com um amigo da turma. Ontem, soube que uma colega foi vítima de violência semelhante: o ex-namorado enviou uma foto dela, nua e de quatro, para o seu mailling. Entre outras coisas, ela perdeu o emprego! O outro lado dessa via de mão dupla, que conduz o sujeito ao reconhecimento em longa escala, é a ridicularização desse mesmo sujeito. Bergmann já nos mostrou em seus filmes que a violência silenciosa é a nossa mais poderosa arma. A violência fria da distância é tão covarde quanto um assassinato com arma de fogo.

 

O calor infernal me faz pensar que o céu deve ficar em algum lugar da Islândia.



Escrito por gheirart às 10h24
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