Eu gosto de andar pelas ruas de cabeça baixa. Conheço profundamente o chão. Cada centímetro do meu percurso diário dá forma ao meu mundo rasteiro que, nos dias de chuva, são também poças que me levam ao infinito. Têm dias que sinto um desejo incontrolável de abraçá-los, mas temo parecer um mendigo derrotado ou fazer parte de um videoclipe qualquer do mundo encenado. Mas, por mais encolhido que eu permaceça, muitas coisas invadem o meu plano sensível e não posso abstraí-las. Aciono, então, um modelo interpretativo automático para compreender a obviedade do comportamento humano – reavivo tudo de mais poético que nos foi arrancado. Outro dia, fiquei na dúvida se conhecia ou não um par de sapatos! As vezes, ouço vozes que cobram-me reconhecimento. Algumas até levantam-me as pétalas por alguns instantes. No fim, nada consegue me erguer. Sou um girassol que perdeu a sensibilidade ao Sol? Como se a tristeza fosse um protetor solar e eu tivesse lambuzado-me dela. Ou seria eu um girassol que se cansou dessa luz quente e vulgar, disponível a todos? Como uma celebridade que viu nos holofotes a revelação da sua fragilidade, da sua representação que era também a sua própria vida. Hoje caíram-me todas as pétalas. Novas pétalas tentam brotar, causando-me dor e desassossego. E tudo que é jovem é tão reencantado, de um deslumbre infantil! Temo que quando todas brotarem, vou me render, por força maior, aos encantos do Sol e ser uma flor como qualquer outra. E, assim, permanecer.
Escrito por
gheirart
às
23h10
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