Eu tinha perdido as esperanças de acordar com a chuva. Esse terrorismo pós-moderno de aquecimento global causa-me um espanto ambivalente. E leva-me para um pensamento distante, em que me flagro ainda mais frágil, pensando que a própria natureza comporta a seu própria destruição. Os seus próprios elementos são também seus inimigos mútuos – como duas matérias que juntas se explodem ou como uma floresta que se incendeia com os raios do sol. E nós, humanos, construímos finais fictícios, na antecedência da ansiedade. Em princípio, um tanto inconcebível e pavoroso, mas também um nada aliviante e esperançoso. A água nos umedecerá os ossos apesar de tudo? Esquecer é mutilar. É cortar, friamente, os pedaços dessa imagem que habita no interior da alma, depois de uma inútil tentativa de despejo. É entrar dentro de si mesmo com uma foice, cortar pedaço por pedaço e jogar para fora os detritos da própria farsa. Tudo feito na frieza de uma alma desidratada, que atravessa os véus no seu desespero e enxerga o auto-engano. Então, é preciso esperar as poças se encherem para lavar as manchas de sangue, que serão devidamente eliminadas pelo suor, pelas lágrimas, pelos vômitos e pela urina do tempo. O esquecimento é um assassinato frio, é o achatamento da imagem, é a conversão do tudo em nada.
Escrito por
gheirart
às
22h20
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