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Venho, ao longo da minha existência, convivendo com a decepção, porque ela sempre reaparece, nas suas tantas faces e níveis. Esperamos pelas coisas com a mesma esperança vazia do instante seguinte, sem garantias. Ainda sim, estamos lá, alimentando-nos com migalhas de possibilidades, porque não temos ingenuidade suficiente para ver beleza na faticidade da existência, de tudo o que é apesar dos nossos desejos. Mas o problema desponta antes, na forma trágica como encaramos a morte e nesse vazio que o mundo sem razão simboliza – por causa dela e da sua falta de respostas nos tornamos seres absurdamente inventivos. A salvação celestial, por exemplo, que se tornou um “salve-se quem puder” no mundo pós-moderno (das igrejas que recebem dízimos com máquinas de débito), é fruto comprometido da domesticação civilizatória que culminou num drama infinitamente maior: a vulgarização da esperança.
Num mundo caótico, esperar o melhor das coisas é uma ação quase patológica, que só pode ser encerrada com a violência de uma bofetada.

Todas as vezes que imagino meu corpo esmagado, ainda assim me vejo por dentro, aprisionado, como numa sensação de cegueira. Sinto o horror humano da deformação. Então, avisto a chegada de vermes invisíveis para se alimentar do meu espírito, desconstruíndo todo e qualquer pensamento.

Na era das catástrofes aéreas – não somente por conta do aumento absurdo do tráfego de aeronaves e das passagens promocionais com preços irrisórios, mas também da quebra de empresas no capitalismo tardio e no aumento das tragédias –, nada como observar um outro lado. Longe de fazer uma (possível) leitura marxiana, do príncipe e do plebeu, mas a morte não parece ser a máxima da democracia, numa época tão selvagem? Todos vamos receber esse presente.
E uma cena fica na minha mente e me persegue: faço uma alusão a queda dos passageiros como um grupo de pessoas num daqueles brinquedos radicais de um parque de diversões, onde o dispositivo quebra e não amortece o movimento. Parece-me violento, rápido, inconsciente e indolor.



Escrito por gheirart às 16h37
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 Esse trecho do meu memorial resume bem o que eu penso de "eventos" como a parada gay.

[...] Todos esses errantes com quem, até hoje, cruzei por essas passagens dessa talvez bifurcação, deixaram-me pequenas dicas de como sobreviver por essa estrada, porque ela também oferece seus perigos. É a guerra da diferença, da tentativa de não aceitação e da domesticação que esses sujeitos são (auto) despejados na sua beira. E ali, à margem, não somente encontrei transeuntes, amigos ou buscadores das mesmas respostas. Não. Lá também avistei “diferentes” que reivindicam suas condições de “iguais” ao restante dos iguais – e, com isso, assumem ideais equivocados por carregá-los no ir e vir da estrada, como também posicionam-se como auto-inimigo. Diferentes que não conseguem enxergar que todos os diferentes têm um particular caminho e, por isso, igualam-se.

Identifico-me com os verdadeiramente diferentes porque todos nós pagamos nossos preços e convivemos na fila do júri das satisfações, direcionados à guilhotina invisível. Porém, tudo vale a pena. Porque é neste bojo onde ocorrem as verdadeiras transformações, nas suas mais complexas e específicas diversidades. São os errados, que fazem desse mundo um pouco mais habitável, mais sensível, mais justo. São os diferentes que apostam na condição de imperfeição e que correm para consertar os estragos causados pela mediocridade do comum. São eles que, juntos, formam quase um mundo inteiro. [...]



Escrito por gheirart às 16h51
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