Não sei se todos sabem, mas o nome desse blog foi inspirado num disco dos Manics. Não quero ficar aqui fazendo resumo de história da banda, até porque creio que qualquer pessoa dita bem informada, de alma febril e revolucionária, conhece o genial trabalho deles. O amigo Marcelo Yorke conta no texto que segue, devidamente editado por conta de espaço, como foi o show da nova turnê, em Londres. Detalhe: todas as letras do novo álbum são de Richey James (no encarte foram reproduzidos os origninais) e a capa de Jenny Saville foi até censurada. Alguma injeção de ânimo num mundo tão apagado e repetitivo. MANIC STREET PREACHERS - live at Camden Roundhouse, London (29-05-09)
Uma molecada se aglomera na calcada em frente ao mercado de Camden Town, bairro de todas as tribos alternativas do mundo. Sao três horas da tarde e percebe-se claramente a ansiedade no rostos desses jovens, muitos deles com menos de 20 anos, para o tão aguardado show da turne do 9º álbum de estudio dos Manics – Journal for Plague Lovers. Ainda faltam algumas horas para o show, mas ja é possivel localizar vários "clones" de Richey Edwards, o falecido primeiro vocalista da banda. São meninos que, em sua maioria, mal tinham saído das fraldas quando Richey desapareceu. E é isso que faz o rock and roll ser tão apaixonante: ser atemporal. A nova turnê dos Manics é impecável. Além deste ser o melhor disco deles desde o fim dos anos 90, eles tocam na ÍNTEGRA esse novo trabalho na primeira metade dos shows, e, após um intervalo de 10 minutos, voltam pra uma sequência esmagadora de hits. A primeira faixa, que abre o novo disco, é Peeled Aples. É como se eu estivesse sendo lembrado, o tempo todo, do quão importante eram o disco e a turnê. James, Sean and Nicky são extremamente seguros e confiantes no palco. "Me and Stephen Hawking" e "Marlon JD" sao executadas com a fúria de um adolescente de 18 anos, por uma banda com 18 anos de estrada. "This Joke Sport Severed" é costurada por cordas (em algumas canções juntam-se ao trio um guitarrista, um tecladista e um quarteto de cordas). As canções, recém-saídas do forno, são acompanhadas do início ao fim pela platéia hipnotizada, como se fossem clássicos. "Jackie Collins Existential Question Time" começa devagarzinha, mas engana muito bem, ao terminar num furioso punk rock. Entre uma música e outra, o vocalista James vomita palavras contra governos, políticas e a recessão. O baixista Nick Wire é o mais carismático. Fala pouco, mas quando fala é ovacionadíssimo. Ele não se mexe muito no palco, esta com longos cabelos loiros e seu microfone vem "montado" – plumas coloridas, lantejoulas, brlhos... Mais chamativo, impossível! Em "Facing Page: Top Left", James fica sozinho no palco, numa sessão acústica, como se estivesse dando uma canja num pub londrino numa segunda a noite. Linda. O palco é simples, com uma bandeira-poster gigante com a polêmica (e linda) capa do novo disco ao fundo, onde permanece apenas durante a primeira parte do show, sendo retirada no intervalo. Após a parada, a parte mais esperada, pelo menos para mim: porradaria. "Motorcycle Emptiness" estupra o silêncio do intervalo e transforma a platéia numa imensa roda-de-pogo. O massacre sonoro não pára: "No Surface All Feeling", uma estática "You Love Us", seguida pela emocionante "Tsunami", "La Tristessa Durera", a sensacional "Faster", "If You Tolerate This Your Children Will Be Next", "Australia", e minha favorita de todas, "You Stole the Sun From my Heart", que fez todo mundo pular, mas pular MUITO. Pra fechar essa noite fabulosa, "Motown Junk", que teve como introdução "Stop in the Name of Love" (The Supremes), tão atual que é difícil de acreditar que é mais velha que Miley Cyrus. "Everything Must Go" e "A Design for a Life" (o maior hit deles) são tão fortes e poderosas que, se qualquer partido político [de esquerda] resolvesse adotá-las como música-tema, venceriam tranquilamente as eleições por aqui.
Escrito por
gheirart
às
12h18
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Convertemos-nos numa espécie quase desumana. O preço da evolução custou-nos a regressão subjetiva ou nos lançou num outro estado primitivo? O homem pós-moderno, na sua versão higiênica e sedentária, apreendeu o funcionamento das máquinas – que veio, desde então, moldando sua alma. Anda com um carro imaginário como extensão de suas pernas e outras parafernálias eletrônicas acopladas em seus órgãos, possui amigos virtuais, achata sentimentos, sensibiliza-se com o desprovido de profundidade etc. Com a difusão da desgraça, o distanciamento é justificado por algo que sempre é tarde para agir – vitimiza-se. Esse tempo é convertido em consumação barata, em deleite imaginário. Não há guerra e não há paz. Em qualquer lugar do planeta informaram: Michael Jackson está morto. Mas ele já não estava morto antes de morrer oficialmente? Perdeu a cor, a voz, a dignidade, a forma, os cabelos, a fortuna e ninguém reparou? Precisou perder a vida, coisa tão pequena no mundo eterno das imagens, e ainda assim não lembraram que tinha um sujeito ali dentro, como disse Heidegger, que pastorava aquela vida em direção ao horizonte nebuloso da existência. Mas se isso te satisfaz, a arte ficou preservada na memória externa da tecnologia, a ser comercializada para o consumo dos sem competência para chegar à eternidade. Esse Michael por quem choram está vivo, porque é essa imagem que todos preferem dele: não de uma criança massacrada que habitava naquele corpo, não aqueles tantos anestésicos que amenizavam sua vida perturbada e cheia de cicatrizes inflamadas etc. Sua vida paralela e difícil não têm importância no mundo do consumo, onde o que importa são os resultados imortalizados da aparência.
Escrito por
gheirart
às
15h48
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|