Eu estou perseguindo a vida. Meus pensamentos atravessam as fronteiras do sono obrigatório. Os aditivos me lançaram no mundo do fracasso. Passou também. A lembrança de uma reflexão aparece – a convicção religiosa de reciclagem de almas, da razão para além do cérebro. E o tecido esticado adulterou o caimento da velha camisa xadrez. Mas ainda é camisa, até que pode-se comprar os botões perdidos ou difarçar o desbotado. Acordei amassado no velho armário, ao lado de roupas aparentemente limpas e passadas – conduzidas, não jogadas. E tem uma estranho charme na desordem! Talvez o arriscar-se intenso do salto entre a dor e a delícia, da resposta imediata das sensações. Meus olhos se fecharam sozinhos, mas eu podia ver tudo do mundo que era dentro. Dei-me os pêsames num sorriso irônico e enfiei os botões em suas casas, mas fui usado e ainda estou impregnado do suor alheio, com a preguiça de encarar o equilíbrio, a preservação ordinária da vida. Tudo invenção de um sujeito colonizado por modelos de ser e de não ser. Quão bom é ver a cidade, num dia vazio de feriado, no banco traseiro de um taxi. A destruição de paisagens inteiras num piscar de olhos da compreensão, na irresponsabilidade do sono que tenta te possuir que é também o modelo romântico do nosso ego para morte. A noite escura amplia e acolhe minha alma no todo que minha condição de partícula impede. Sou pequena parte nômade por rejeição, tentando flagar atrás de um pilar o que a vida é, mas não posso entender o que é dito – os fragmentos que ouço não fazem sentido sequer. Outra reflexão destrói uma cidade antiga, mas tem tanta gente para socorrer! Suicido-me para morrer junto, na covardia do solidário. Num tempo desconfigurado sinto que se passaram cem anos! Minha pele amassada reflete-se na janela do carro. Parei numa esquina, sem vontade de concluir o percurso, e enviei mensagens para alguém que não era você. Arrastei-me no chão da sua indiferença e te elegi o pivô da minha falsa desgraça. Foi quando fecharam a porta do armário! Uma fresta de luz passava pela fechadura projetando imagens no meu cérebro. Encontrei outra mina de pensamentos no poço da minha alma. Tentei impedir com as mãos que a água contaminasse tudo, mas ela ruiu grande parte dos meus castelos de areias. Mas não consegui te deixar morrer, pelo mesmo motivo que não posso comer um pobre boi. Converti-me num espião da existência, misturado a tudo que existe. Falta-me apenas a discrição.
Escrito por
gheirart
às
11h50
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