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Dizem que os verdadeiros cinéfilos não dão conta de encarar salas de cinema. Achava essa atitude lambuzada de pesadas doses de arrogância, porque dei uma pausa na minha frequência aos cineclubes, por conta da preguiça – que, as vezes, tinha meu sono como fatídico indicador. Mas eu posso me explicar: assim como a própria vida social, tenho achado tudo óbvio demais! O medianidade do cinema gringo com essa erudição ou simplicidade forçadas, o cinema nacional nos moldes globais do “Chou do Andrucha”, pouco acrescentam ao meu faminto imaginário. Mas confesso que o maior combustível é mesmo a ausência do surpreendente, das narrativas poderosas (destesto essa defesa vulgar do clássico, dessa velharada-legítima-higiência da nossa fracassada crítica de arte, embora sinto que já estamos na base da reprodução há décadas), porque até aprendi abstrair aquelas pessoas que frequentam as salas pelo evento ou para anotar mais um filme na estatística de sua coleção, como se a arte fosse recheio do conhecimento enciclopédico a ser revelado no agendamento temático (é uma leitura possível e reducionista, eu diria). O problema é que essas pessoas têm o instinto da baixeza em constante superação e, então, transformam tudo numa má surpresa aos meros aspirantes da arte. No último mês, empolguei-me com alguns filmes e encarei a labuta – prometi que iria abstrair pipocas caindo nos estômagos e tampouco me irritar com os amassos daquele casal de gordinhos. Tudo parecia perfeito, até que nos primeiros dez minutos chegou uma dupla e pediu que eu me mudasse para o banco ao lado, para que eles pudessem sentar juntos. Ok, isso é absolutamente normal – pensei. Passados poucos minutos, abriram latinhas de refrigerantes e uma caixa de pizza. Para reforçar a concentração, coloquei a mão no ouvido esquerdo e com um dedo tapei-o. Quase vinte minutos depois ainda mastigavam e comentavam sobre alguma passagem do filme. Isso confirmou mais que a minha indisposição – que por momentos me soava como mera intolerância –, reforçou, sim, as minhas críticas ao esmaecimento do que são os espaços público e privado. As pessoas abandonaram o lado ritualesco de tudo e, alí, na escuridão, a multidão se achatou. Fiquei na dúvida se queriam ter algum destaque no escuro ou se pensavam que alí fosse mesmo o sofá de suas casas e, a tela, seus aparelhos de plasma. Pode ser que, por valorar a sétima arte como um filme repetitivo da televisão por assinatura, quisessem aproveitar melhor o tempo na sobreposição das ações. E, tive também a mais absoluta certeza, nada tinha relação ao corte de classes! A democracia da falta de educação devia estar sendo celebradada, simultaneamente, em todas as salas do país. E continuou nos filmes que assisti nos dias seguintes.
Escrito por
gheirart
às
10h09
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Tem dias que tudo se faz tão claro que parece existir uma conexão entre absolutamente todas as coisas. De certa forma, isso só pode causar pavor, porque sentimos também o reducionismo desses modelos interpretativos, tão usados de forma automática por nós humanos, que nos servem de muletas vulgares e que perpassam por todas as diferentes esferas da existência. Essa vida encenada, na teatralidade do cotidiano, violentou a nossa essência, porque a compramos como fórmulas da felicidade. Ah, sem imediatismos, por favor! Muito antes da televisão se hospedar em nossos lares já tínhamos a salvação cristã e os palcos da civilização para nos assoprar os caminhos. Vaidade, sedução, aparência, encenação etc. são verdadeiros adjetivos quase intrínsecos ao homem. São sentimentos que desenvolvemos pelo mesmo fundamento do final feliz, porque, do contrário, só nos restaria a tragédia – mas não nos serve de nada além de mero consolo, de combustível para alimentar a lei do “ter que ser” que nos aniquila. As trevas do ser devem ser evitadas na praticidade da luz elétrica, paga na conta do fim de todo mês. Metáfora essa do fundamento da cultura que também nos ofereceu as ditaduras de gênero, de raça, de credo, de felicidade etc. E pagamos: uns em dia, outros em atraso. Dia desses, vi uma senhora idosa vestida e comportando-se como uma adolescente – a psicologia diria que ela não viveu aquela fase no devido tempo. Não fosse esses anseios que nos preenche, sem sequer nos trazer nada além de ansiedade, que nos são também suspeitas de sofrimentos e doenças – quando nos deveria ser apenas dúvidas do que tem de corpóreo na alma e de espiritual no corpo. Ah, os nossos testemunhos são de uma propriedade vergonhosa! Passamos os nossos dias circulando na imagem que roteirizamos para nós mesmos, imaginando o outro que não passa de extensão do nosso próprio ego. Nomeando de felicidade e infelicidade ao que nos é bom ou mau. Pobre daquele que não suporta zona fronteiriça, já que a vida é fratura exposta e, logo, transgressão. Nada sente no intervalo entre dois sorrisos? O movimento é dilatação do espaço, é pura invasão! E para quem buscamos perfeição, para o outro que habita em nós que não nos é, que é extreno? Mas não é Deus, na nossa falsa humildade, quem merece tudo sozinho para alegrar sua tristeza? Pergunte, então, a ele qual foi o pecado dos pássaros ou porque o sexo dos índios continuam à mostra. No final (da novela) nos será revelado tudo, até mesmo aquele amor que não emplacou na eternidade do convívio? Porque parar por aqui e não ironizar a própria guerra? A desconexão das coisas tem muito mais a nos dizer.
Escrito por
gheirart
às
11h41
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