Morreu o último homem. Chegamos ao fim da espécie. O mundo converteu-se numa grande cidade abandonada. As máquinas, sem nenhum comando, pararam e as que foram programadas duraram por mais algum tempo. Os animais domésticos morreram em questão de dias e os mais ousados mutaram ao estado natural. A carcassa de um pássaro na gaiola, com os pés para cima, absorvia uma luz elétrica que resistia fraca no quarto vazio. Cidades ruíram, terras foram engolidas – plantas e bichos desapareceram. Faróis piscavam desconfigurados e à toa, satélites olhavam sem ver, plásticos voavam na liberdade da longa duração. Raízes brotaram do chão, invadindo construções e expulsando o tapete de cimento, empurrando os ferros das vigas ao grande lixo a céu aberto. Os seres ainda vivos se aglomeraram nas cavernas das florestas, lutando na cíclica predominância de suas espécies. Enquanto o caos se decompunha, um a um morria no espaço mínimo do mesmo instante, e tudo se unia no estômago da terra. O seco se fez molhado, o gelo se fez fogo, existir se fez um primitivo escapar. O último arco-íris brilhava na sua indiferença que parecia celebrar o funeral coletivo de todos os deuses. Os vermes, então, enrigeceram a terra no eterno banquete da destruição e do recomeço. Final ou gênese? O Noé da vez estaria numa arca espacial esperando, na sua finitude, a ordem de tudo se repetir? Oh, esperança da alma! Valei-me na satisfação do instante que ainda oferece tantas e incertas possibilidades.
Escrito por
gheirart
às
14h59
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Como alguém pode afirmar que ama a vida se nada sabe fazer além de viver? Conformismo ou compreensão do todo? Se opções nos fossem dadas, escolheríamos a vida como optamos pelos objetos? Pudéssemos nós verdadeiramente sumir, fugir ou congelar o tempo etc., em todas as possíveis nuances, para onde iríamos como espécie? Porque tanta reverência à ditadura da felicidade, se a tristeza subversiva fica descartada no que deveria ser oscilação e volta num violento golpe de estado? A fraqueza é o calabouço do solitário, mas a hipocrisia é o mero engano das extremidades, é anestesia. Esteja feliz enquanto a tristeza for espairecer e, quando ela voltar, use-a até o momento em que a felicidade for desejada. O ser, em si, apenas é. A pretensão do homem em relação à sua beleza, que é garantida pela sua inteligência que auto-institui o belo, o faz fingir a afronta que sente ao lado de uma zebra ou de um pavão. E a sua covardia é a condição da sua predominância.
Escrito por
gheirart
às
20h34
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