Tem um estranho charme na loucura, porque todos os covardes apostam nela todas as suas fichas. Sim, somos todos ingenuamente covardes, na busca da dissolução de dúvidas-perguntas-dessassegos. Na loucura, podemos assumir a nossa própria fraqueza, o nosso horror, e, ao mesmo tempo, usar a própria vida como exercício de poder – o meu mundo começa e encerra comigo! Preservemos, então, as suas camadas. Não é com a mesma vulgaridade perversa que aquele homem encantado busca o inalcançável ápice da sua felicidade e vicia-se pela adrenalina social? É ainda exploração das escalas entre vida e morte, um caminho de esfarrapados que, contraditoriamente, a lucidez extrema nos faz percorrer. Veja como aqueles que fazem vistas grossas à complexidade só podem voltar de carona, dopados nas macas dos anjos da estrada – homens obstinados, em paz com a guerra ou em guerra com o que poderia ser paz para os outros? Tapam os olhos e perdem-se na bifurcação... Mas todos temos que voltar para durar, para salvar o próprio e inédito mundo (que também comporta os possíveis tudo e todos). Também não é loucura o caos disfarçado da sanidade? O equilíbrio almejado pelos modelos de ascensão existencial são como a pobreza camuflada nas cidades, como os espaços ocupados dentro de cada ser que são escondidos pelo corpo e também esquecidos por não serem sequer vistos. Que vêem os cegos por dentro? A loucura está para além de lúcidos e de insanos. O charme é estar no hibridismo das fronteiras. É o libertar-se do amarelo.
Escrito por
gheirart
às
12h02
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