Com a chegada das máquinas, além das estrelas artificiais criamos nosso próprio mundo e ainda conseguimos expandir o nosso prazer com o objetivo do mínimo esforço. Se no começo elas nos agrediam com seus tamanhos e modelos, no decorrer do tempo se adaptaram e tomaram as nossas terras pelo tempo de posse, ou seja, por “uso capião”. As máquinas viraram sinônimo materializado da evolução almejada pela nossa ilusão de viver somente a inteligência e o gozo, em defesa da condição de deuses domésticos no exercício do seu poder supremo, que pode dar e tirar a vida no simples desplugar da tomada. Com a automatização da vida as suas etapas se transformam e saíram do controle. As máquinas se autonomizaram, inverteram e ganharam o centro desse projeto humano. Especialmente com os meios de comunicação, que serviram de modelo para a efetivação: da difusão em longa escala até as conexões de cabos e redes numa lógica planetária. Aqui também temos as máquinas mediando relações sociais locais e globais, difundindo o consumo (e ensinando como, pra quê e o quê consumir) no seu sentido literal – publicidade, estilos de vida, palavras, arquétipos, ideologia etc. O sujeito passou a estar sempre mediado por um aparato eletrônico que contaminou a comunicação e, tão logo, o aparato se sobressaiu. No capitalismo da terceira fase, o protótipo dos meios de comunicação se alastrou fazendo da máquina o novo próximo, o novo outro, enfraquecendo as interferências do tempo cronológico e do espaço geográfico. Sim, em sua maioria, a vida social foi sugada pelos computadores com suas comunidades virtuais. O diálogo é feito por dedos que transitam na segurança da distância. A língua também se adequou como registro de um oral efêmero que descarta as regras. Ela se atrofia porque não pode se alojar num sujeito escorregadio. Ela se fragmenta em dialetos também efêmeros e específicos [:)]– o capitalismo poderia ser o responsável pelo segundo estilhaçamento do homem, ao mesmo tempo em que provocou o declínio da cultura letrada também permitiu que o inglês assumisse sua condição de língua franca. Muitos verbetes foram estupidamente incorporados nas culturas, bem como a língua falada na sua prolixidade e minuciosidade tautológica. A comunicação é convertida em códigos e transmitida por fios. Ela se perde do enunciador porque quem enunciou para o outro efetivamente foi a máquina e vice-versa. A comunicação se aliena quando esse enunciador a envia (e pode não chegar ou se perder por conta de uma mera letra), porque no mundo imaterial os pólos são invisíveis e apenas o texto é a garantia legítima da verdade – até mesmo as imagens são para o computador textos, algoritmos, fórmulas, símbolos etc. Na imaterialidade, quem não é mediado não pode se comunicar, porque quem não tem “dedos” nem sequer existe. Os discursos são, em sua maioria, as vozes encarceiradas pela letra. O diálogo existe numa presentificação eterna, que pode ser retomado, elaborado, simulado etc. a qualquer hora, a qualquer dia. É a lógica de “dizer o que quer” e de se “ouvir o que quer” para um outro desconhecido, no volume ideal ou na entonação das caixas altas. A palavra não é apenas fruto sensível do pensamento, mas é amadurecida, engessada, para penetrar nas relações imateriais na situação coerente e num instante nômade, de uma subjetividade nômade. Ela é também corrigida, adulterada, apagada, cancelada, substituída etc. antes de ser pronunciada pela boca invisível. Às vezes, roubadas, forjadas ou mesmo ignoradas na falsa democracia desse território imaterial.
(O desassossego da permanência pós-moderna, Ozie Gheirart)
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gheirart
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08h48
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Alguém me disse que tenho, de uma época pra cá, refletido muito sobre pessoas, comportamento etc. Talvez isso se deva, essencialmente, a atividade física. Na prática, esse movimento com o corpo é uma experiência solitária, de revisão de veículo. O trabalho é arduo porque o sedentarismo é tudo para o que genealogicamente e inconscientemente lutamos. É preciso promover o isolamento na multidão – desfocar os outros veículos e evitar os espelhos. A estupidez da carne precisa de limites: quando o cérebro dá as rédeas, o corpo vem a ser sua real extensão e é impedido de materializar a derrota. A transformação é certa, porque o condicionamento da disciplina é também forma de acolher o corpo que nada, sozinho, contra a corrente. Junto com isso, as mudanças nos hábitos alimentares e, consequentemente, do metabolismo, dão também uma outra condição de existir e muito nos influencia no estado emocional. Mas os pensamentos continuam, apesar deste condicionamento: corro ouvindo marcha fúnebre, estruturando meus pensamentos, amadurecendo as leituras, refletindo sobre meus projetos, criando sem parar, observando as coisas que deixo de cuidar etc. Antes de voltar ao eclipse, minha alma circula por muitos lugares e, as vezes, prepara seu chá de lágrimas; já meu corpo, como numa faxina, lança o que não me serve para fora. E, como num efêmero divórcio, ambos se reconciliam e aproveitam-se mutuamente num curto período de paz.
Escrito por
gheirart
às
11h07
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