O soldado voltou da guerra. Estatelou-se no chão quando pisou na zona de conforto. Um pássaro, representando a indiferença do que não é humano, sobrevoou seu corpo como um objeto qualquer – tivesse o animal o olhar da consciência, compreenderia Jenny Saville? A guerra contaminou o sonho daquele homem, como aquela vertigem da água que nos persegue depois de um dia dedicado ao mar – a pele queimada e a dor dos músculos nos é garantia de insônia! Ele perdeu muitos eus na batalha, mas ganhou a acolhida do chão, como as folhas amareladas e tudo que vem a se decompor. O sono preencheu o vácuo da pausa da guerra, mas o corpo assegurou-lhe vida. Não perdeu ou desistiu da batalha, apenas desbotou o inimigo também lançado na existência. Atravessou o fogo cruzado blindado de reencanto e apagou a linha imaginária da fronteira. Acordou com a pele sufocada pelo sangue seco e celebrou o alívio no caminho de volta.
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gheirart
às
12h11
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A velha senhora abriu sua janela e observou a procissão humana de cima. Equilibrou pesadas jóias como um fardo. Do fundo, o relógio barroco achatou e contradisse o tempo vertical. Corpos se espraiaram e formaram abstratos desenhos como nuvens carregadas. O abafamento da distância ecoou na acústica do ouvido. Ela resumiu o mundo e desejou a transcendência. Os braços abertos da janela pedia-lhe um abraço, mas ela preferiu não alimentar urubús. Cruzou um olhar desfocado com a mancha de um homem e sugou sua risada reprimida. Sorriu tão intensamente que, numa linha tênue, veio a chorar sob a desculpa de que o relógio não se apropriava da realidade. Aquele vulto atraiu, novamente, seu olhar dentro da multidão órfã. Num esforço, trocou de lugar com o foco e ouviu palmas abafadas que num brusco aumento de volume estourou-lhe os tímpanos da alma. Desviou o olhar e enquadrou um calendário na parede. Impacientemente, preferiu adiantar o futuro no virar da página.
Escrito por
gheirart
às
08h57
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