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Na distância, tudo é passível de ressignificação. Entre o sujeito e o objeto permeiam juízos, intuições, enfim, construções enunciativas. Tem sempre um “espaço” até entre a menor partícula, para que ela possa existir, e, assim, é aí onde as coisas se “encontram”. E, como já nos foi antecipado, em especial na relação intelectual entre os alemães Kant e Heidegger, ligamo-nos aos objetos para além dos possíveis predicados, porque invadimos seus significados na experiência.
No mundo pós-moderno, a ficção se assume como vilã, como interferência dessa “conexão”. Desde os primórdios do establecimento da tão discutida “indústria da cultura”, o homem vem pensando como a ficção vem atuando forçosamente neste intermédio – por suposto e contrário do processo da linguagem, sempre apostando pouco na refração. Na prática, é um espelho semi-autônomo, de muitos reflexos próprios, que nos oferece modelos de subjetividade por meios coisas sentidas e testadas. O olhar se aliena e é quem seleciona e conduz os desejos, muitas vezes independente do corpo e da própria razão. Assim, a frustração se estabelece como o companheiro de permanência que te aborda toda a viagem. A mulher que se masturba assistindo a dupla penetração do filme pornográfico não considera sua anatomia, por exemplo. O prazer da perversão está na obesidade do olhar que desconsidera a também possibilidade do questionamento da dor. É uma leitura, entre tantas possíveis. A “realidade ficcional” preenche boa parte do “espaço enunciativo” e nos diz, na mesma frieza niveladora, o que é o não é poético, o que é ou não é amor, o que é o ou não é hamburger etc. A sensibilidade fica, inevitavelmente, jogada num balão de oxigênio de uma unidade intensiva ontológica?



Escrito por gheirart às 10h19
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Soneto, de Augusto do Anjos
(poema dedicado ao seu filho nascido morto, em 2 de fevereiro de 1911)

Agregado infeliz de sangue e cal,
Fruto rubro de carne agonizante,
Filho da grande força fecundante
De minha brônzea trama neuronial,

Que poder embriológico fatal
Destruiu, com a sinergia de um gigante,
Em tua morfogênese de infante
A minha morfogênese ancestral?!

Porção de minha plásmica substância,
Em que lugar irás passar a infância,
Tragicamente anônimo, a feder?!

Ah! Possas tu dormir, feto esquecido,
Planteisticamente dissolvido
Na noumenalidade do NÃO SER



Escrito por gheirart às 10h05
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