O balladeur saiu às ruas, sem destino. Deixou-se entregar ao cotidiano ordinário. Viveu o excesso numa quase sociocentria, procurando a beleza do equívoco. Em movimentos não-lineares, superando espaço e tempo, percorreu o desenho da cidade em corpo e alma. Explorou para além das aparências. .............................................................. Exercitou o pensamento imaginando os possíveis acontecimentos de uma rua de construções antigas. Locomoveu-se na velocidade dilatada, ao extremo, do trêm. Espantou pombas que se aglomeravam num fétido vômito. Sorriu para a puta na porta do cafofo. Sentou-se ao lado do mendigo e fixou-o em silêncio. Ouviu um concerto, no fone de ouvido, na sala de espera de um pronto socorro. ............................................................... A procissão caminhava, em círculos, para o lugar nenhum do mesmo lugar. Os rostos oscilavam na personalidade forçada, no encantamento da afirmação espetacular. Dois homens lutavam em vão numa esquina, enquanto um cisne, no lago do parque, abstraía os ruídos como que delineando os cílios. Não desejou a nostalgia cômoda e vulgar. Enfiou-se na multidão de Poe: ampliou-se e reduziu-se, causando estrias no cérebro. Avistou a maquete de cemitério de cima e tentou o diabo. Assistiu um carrinho de bebê sumindo na fumaça do escapamento de um caminhão. Seguiu os passos de um obeso no subir da ladeira. Conduziu o cheiro de um boteco à alma. Lavou o esperma fresco, respingado no vaso público, com a urina. Deitou aos pés da multidão para contemplar o desenho abstrato que milhares pernas formavam. Tudo ocorreu por um século de instante. ............................................................... Foi resgatado pelo cansaço. Os prédios, fervendo, forçaram o Sol a se pôr para o labirinto. Em casa, outra multidão sem corpos o aguardava! Da experiência, enojou-se apenas do equívoco.
Escrito por
gheirart
às
09h51
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