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Todas as noites eu vivencio a morte com a chegada do sono. É sempre uma inevitável escuridão que se amplia, até as janelas se fecharem. Águas brotam de paisagens das quais eu sempre esqueço a cor. Arrastam-me, engolem-me e mantém-me submerso em seus fluxos irregulares e descontínuos, como na ruptura da pausa do corpo em alta velocidade.
Nas poucas vezes que não durmo, sinto saudades da morte e permaneço melancólico em contemplar a infinitude do instante do que é acordado.
Onde acordou aquele que foi despejado pelo corpo gelado?
As portas se fecharam ou num lampejo escolheu escuridão?
Será que a vida contamina a morte da mesma maneira que a morte contamina a vida?
E se estivéssemos mortos antes de nascer do mesmo jeito que para acordar precisamos dormir?
(Tantos dormem acordados...)
A minha alma sitiada espraia-se em lugares úmidos. Ela fez da chuva o seu Sol – deita, então, na areia da praia para sentir raios molhados. Muitas vezes, deixa-se levar pela correnteza, numa expedição imaterial – sempre com sequelas.
A escuridão se vai também para os que acordam do “outro lado da vida”?
Ah, costurei uma lupa no meu olho direito para enxergar o real em detalhes. E é aterrorizador ver o pessimismo que desenha o mundo e que nos arranca as esperanças.
Mas ver todos os castelos de areia desmanchados pode servir para transformar o caos em argila do reencanto! E ter impulso para todos os dias acordar para durar!



Escrito por gheirart às 14h56
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