Acordei com o canto improvisado de um apocalíptico pássaro. Parecia um alerta para a complexidade do fim. Pela janela, não pude localizar aquele jovial canto, na vastidão de árvores contaminadas por indigestas nuvens que escondiam o Sol. O amor de alma sugou-me a céu aberto, flagrei-me ao observar o funcionamento dos órgãos de uma formiga no processar da decomposição – fui desvelado na minha auto-compreensão de ser. Os corpos são também túmulos. Aquele cachorro atropelado na estrada abandonada fervia-se de vidas outras: foi fragmentado em vermes e se transformou em quantas coisas? O fim foi sua expansão? E o pobre velho, que foi derrubado pelo ônibus, não ouviu o pássaro? Seu corpo contorcia como uma formiga que comeu veneno. Um fecho de luz ressaltava uma pequena poça de sangue – a morte foi atraída como um tubarão faminto. A fragilidade doía-me no vigor e não posso dizer se a alma abandonou o corpo daquele bebê-adulto – de camisa branca, caído de costas. O futuro é uma constante ameaça para o instante, mas fomos esquecidos num mundo em chamas! E as verdades científicas, num auto-isolamento do caminho, querem garantir nossa exclusiva permanêcia para contemplarmos, indestrutíveis, a ruína do planeta? O sujeito quebrado com a subjetividade exposta movimenta-se abraçado ao tubarão faminto.
Escrito por
gheirart
às
09h32
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